O aumento da automação nos Centros de Distribuição no Brasil: tecnologia, produtividade e transformação da Logística 4.0

Resumo

A automação dos Centros de Distribuição (CDs) vem ganhando espaço no Brasil como resposta à necessidade de aumentar a produtividade, reduzir erros operacionais, melhorar a gestão dos estoques e atender consumidores que exigem entregas cada vez mais rápidas. Tecnologias como WMS, inteligência artificial (IA), robôs móveis autônomos (AMRs), sistemas AutoStore, RFID, Internet das Coisas (IoT), esteiras automatizadas e sistemas de armazenagem e recuperação automática estão modificando a operação intralogística. Pesquisas recentes mostram que a transformação ainda está em estágio de desenvolvimento no Brasil, mas os investimentos e os casos práticos indicam uma trajetória de expansão. Este artigo analisa esse movimento utilizando dados de pesquisas realizadas no mercado brasileiro e exemplos concretos de empresas que já implementaram automação em seus Centros de Distribuição.

Palavras-chave: Logística 4.0; automação; Centros de Distribuição; WMS; robótica; inteligência artificial; intralogística; armazenagem.

Introdução

    Os Centros de Distribuição deixaram de ser apenas grandes espaços destinados ao armazenamento de produtos. Na Logística 4.0, eles passaram a funcionar como ambientes tecnológicos nos quais dados, sistemas de gestão, equipamentos automatizados e inteligência artificial trabalham de forma integrada para controlar o fluxo de materiais e informações.

    O crescimento do comércio eletrônico, a necessidade de reduzir os prazos de entrega, a maior variedade de produtos e a pressão por eficiência operacional estão aumentando a importância da automação.

    No Brasil, essa transformação já pode ser observada em diferentes segmentos, incluindo varejo, indústria, operadores logísticos, alimentos, farmacêutico e cosméticos.

    Entretanto, é importante destacar que o processo brasileiro ainda não representa uma automação generalizada. Uma pesquisa realizada pela Infor em parceria com a Seal Sistemas, com 124 executivos e profissionais de 97 empresas, mostrou que logística e armazenagem estavam entre os setores com menor percepção de maturidade digital, obtendo nota média de 2,59 em uma escala de 1 a 5.

    Isso demonstra uma característica importante do mercado brasileiro: a automação está crescendo, mas existe um grande espaço para expansão.

    1. A dimensão da transformação digital nos armazéns brasileiros

      A pesquisa “O Armazém do Futuro”, realizada pela Infor e pela Seal Sistemas em junho de 2024, fornece um dos retratos mais concretos sobre a percepção dos profissionais brasileiros em relação à digitalização dos armazéns.

      Entre as tecnologias consideradas de maior impacto nos armazéns do futuro, os entrevistados apontaram:

      Tecnologia| Participação
      Inteligência Artificial e Machine Learning| 16%
      Automação robótica| 14%
      WMS| 13%
      Análise baseada em dados| 12%

      A pesquisa ouviu profissionais de setores como logística e armazenagem, varejo, manufatura, tecnologia, serviços, automotivo, farmacêutico e metalúrgico.

      O resultado é significativo porque demonstra que a automação não está sendo vista isoladamente. Ela faz parte de um ecossistema tecnológico formado por software, dados, inteligência artificial e equipamentos físicos.

      2. A automação como estratégia de produtividade

        A principal justificativa para automatizar um Centro de Distribuição não é simplesmente substituir trabalhadores por máquinas.

        O objetivo estratégico é combinar capital humano, tecnologia e dados para aumentar a capacidade operacional.

        Segundo dados divulgados a partir da pesquisa da Infor e Seal, 78% dos entrevistados apontaram redução de erros e retrabalho entre os principais benefícios esperados da digitalização.

        Outros benefícios identificados foram:

        • 63% — disponibilidade de dados para apoiar decisões;
        • 61% — otimização das rotinas dos colaboradores;
        • 57% — maior precisão dos inventários;
        • 24% — melhoria da experiência do consumidor.

        Esses números ajudam a explicar por que a automação está deixando de ser considerada apenas um investimento tecnológico e passou a ser tratada como uma ferramenta de gestão operacional e competitividade.

        3. WMS: o cérebro digital do Centro de Distribuição

          Uma das tecnologias fundamentais nessa transformação é o Warehouse Management System (WMS).

          O WMS permite controlar processos como recebimento, endereçamento, armazenagem, inventário, separação, movimentação e expedição.

          Quando integrado a equipamentos automatizados, o sistema pode atuar como uma camada de coordenação entre as necessidades do negócio e os recursos físicos disponíveis no armazém.

          Estudos realizados no Brasil apontam que a implantação do WMS pode proporcionar maior controle dos estoques, redução de erros e melhoria do fluxo de informações. Um estudo de caso publicado em 2025 pela Fatec analisou justamente os impactos da implantação do WMS em operações de armazenagem e destacou ganhos relacionados ao controle e à eficiência operacional.

          Assim, a evolução dos CDs tende a ocorrer não pela automação de uma única atividade, mas pela integração entre WMS, ERP, TMS, robôs, sensores e sistemas de análise de dados.

          4. Robôs móveis e AMRs ganham espaço

            Outra transformação importante é o crescimento dos AMRs — Autonomous Mobile Robots, ou robôs móveis autônomos.

            Diferentemente de equipamentos que precisam seguir trajetórias fixas, os AMRs utilizam sensores, softwares de navegação e, em determinados modelos, inteligência artificial para movimentar materiais e adaptar suas rotas ao ambiente.

            Um exemplo brasileiro foi apresentado pela WEG e pela Senior Sistemas: um robô móvel autônomo da WEG foi integrado ao WMS da Senior, permitindo a comunicação entre o sistema de gestão do armazém e o equipamento de movimentação. O robô utiliza tecnologia de IA para navegar autonomamente e replanejar sua rota quando encontra obstáculos.

            Esse tipo de integração representa uma mudança importante na intralogística: o equipamento deixa de funcionar de maneira isolada e passa a fazer parte de um sistema operacional conectado.

            5. O caso do Grupo Boticário

              Um dos exemplos mais expressivos da automação em Centros de Distribuição no Brasil está no novo CD do Grupo Boticário, em Cajamar, São Paulo.

              Inaugurada em 2024, a unidade possui aproximadamente 30 mil m² e recebeu investimento de aproximadamente R$ 150 milhões.

              O empreendimento utiliza a tecnologia AutoStore, um sistema robótico compacto de armazenamento e separação.

              Segundo o Grupo Boticário, a operação foi projetada para:

              • atender mais de 12 mil pedidos por dia do marketplace Beleza na Web;
              • separar mais de 40 mil peças por dia nessa operação;
              • armazenar mais de 8 milhões de peças;
              • alcançar, na operação B2B, capacidade projetada de separação de até 500 mil peças por dia;
              • armazenar mais de 16 milhões de peças na configuração prevista;
              • reduzir em até 50% o tempo de entrega.

              Esse caso demonstra que a automação pode ser utilizada para aumentar simultaneamente densidade de armazenamento, capacidade de picking e velocidade de atendimento.

              6. O impacto sobre o trabalho

                Um dos principais debates relacionados à automação é seu impacto sobre os empregos.

                A realidade dos Centros de Distribuição indica que a discussão é mais complexa do que simplesmente “robôs substituindo pessoas”.

                O próprio caso do Grupo Boticário demonstra isso. O novo CD de Cajamar foi projetado com automação robótica e, ao mesmo tempo, a operação gerou empregos diretos e indiretos na região.

                A tendência é que determinadas atividades altamente repetitivas e fisicamente desgastantes sejam progressivamente automatizadas, enquanto cresce a necessidade de profissionais capazes de atuar com:

                • WMS;
                • análise de dados;
                • manutenção de equipamentos automatizados;
                • robótica;
                • programação;
                • integração de sistemas;
                • gestão de processos;
                • planejamento logístico;
                • inteligência artificial.

                Portanto, a transformação tecnológica modifica principalmente o perfil das competências exigidas.

                7. Automação não significa necessariamente uma operação 100% robotizada

                  É importante evitar uma interpretação equivocada sobre o futuro dos Centros de Distribuição.

                  A automação pode ocorrer em diferentes níveis.

                  Um CD pode começar com:

                  Nível 1 — Digitalização:
                  WMS, coletores de dados, RFID e indicadores.

                  Nível 2 — Automação de processos:
                  esteiras, sorters, sistemas de picking e equipamentos de movimentação.

                  Nível 3 — Robótica:
                  AMRs, AGVs e sistemas automatizados de armazenamento.

                  Nível 4 — Inteligência:
                  IA, machine learning, análise preditiva e otimização dinâmica.

                  Nível 5 — Operação integrada:
                  ERP + WMS + TMS + IoT + IA + robótica trabalhando como um ecossistema único.

                  Essa evolução permite que empresas escolham o grau de automação adequado ao volume, ao perfil dos pedidos, ao investimento disponível e à complexidade da operação.

                  8. O mercado brasileiro ainda possui grande potencial

                    Os dados disponíveis indicam que existe uma diferença entre o potencial tecnológico e o nível atual de maturidade das empresas.

                    Na pesquisa “O Armazém do Futuro”, a percepção média de digitalização de logística e armazenagem ficou em 2,59/5.

                    Ao mesmo tempo, estimativas divulgadas no estudo Infor Reports 2025 – Inovação na Logística 2025 apontam crescimento superior a 18% ao ano para o mercado global de logística digital até 2030, enquanto o Brasil apresentava uma projeção de crescimento de 23% nos investimentos logísticos em 2025.

                    Isso não significa que 23% represente crescimento específico da automação dos CDs brasileiros. O indicador se refere aos investimentos logísticos de maneira mais ampla. A distinção é importante para evitar conclusões incorretas.

                    O que os dados permitem afirmar é que existe uma combinação de aumento dos investimentos, avanço da digitalização e demanda crescente por automação.

                    9. Principais tecnologias que devem transformar os CDs

                      Nos próximos anos, a evolução dos Centros de Distribuição brasileiros deverá envolver principalmente a integração entre diferentes tecnologias.

                      Inteligência Artificial

                      A IA poderá ser utilizada para previsão de demanda, planejamento de estoque, otimização de rotas internas, identificação de anomalias e tomada de decisão.

                      AMRs e AGVs

                      Esses equipamentos podem assumir parte da movimentação interna de materiais, reduzindo deslocamentos desnecessários dos operadores.

                      AutoStore e AS/RS

                      Sistemas automatizados de armazenamento e recuperação permitem aumentar a densidade de armazenagem e acelerar determinadas operações de picking.

                      RFID e IoT

                      Sensores e identificação automática permitem aumentar a rastreabilidade e a visibilidade dos produtos.

                      WMS

                      O WMS continuará sendo fundamental para coordenar os processos de armazenagem e integrar informações operacionais.

                      Digital Twins

                      A criação de representações digitais dos processos físicos poderá permitir simulações antes da alteração de um layout ou da implantação de novos equipamentos.

                      Analytics

                      A análise de dados permitirá identificar gargalos, medir produtividade e apoiar decisões baseadas em evidências.

                      10. O principal desafio: investir corretamente

                        Automatizar não significa simplesmente comprar robôs.

                        Antes de implementar uma solução, a empresa precisa analisar:

                        1. volume de pedidos;
                        2. perfil dos produtos;
                        3. número de SKUs;
                        4. giro de estoque;
                        5. características do picking;
                        6. layout;
                        7. nível de serviço;
                        8. custo da mão de obra;
                        9. retorno sobre o investimento;
                        10. capacidade de integração tecnológica.

                        A própria pesquisa da Infor e Seal identificou o investimento inicial como um dos principais obstáculos à digitalização dos armazéns; em um dos levantamentos sobre os resultados, 25% dos profissionais apontaram o investimento inicial como principal desafio.

                        Por isso, a automação deve ser tratada como um projeto de engenharia logística, e não apenas como uma aquisição de tecnologia.

                        Conclusão

                          O avanço da automação nos Centros de Distribuição brasileiros já deixou de ser uma tendência exclusivamente futurista.

                          Os dados mostram que empresas brasileiras estão incorporando WMS, inteligência artificial, robótica, AutoStore, AMRs e outras tecnologias para aumentar produtividade, precisão e capacidade operacional.

                          Entretanto, os mesmos dados demonstram que o Brasil ainda possui um amplo espaço para evolução. A percepção de maturidade digital de apenas 2,59 em uma escala de 1 a 5 entre empresas de logística e armazenagem mostra que uma parcela significativa do mercado ainda está no processo de transformação.

                          O futuro dos Centros de Distribuição não será necessariamente caracterizado por instalações totalmente sem trabalhadores. O cenário mais provável é a construção de operações híbridas, nas quais profissionais especializados trabalham em conjunto com sistemas inteligentes, robôs e plataformas digitais.

                          A verdadeira revolução da Logística 4.0, portanto, não está apenas no robô que movimenta uma caixa.

                          Ela está na capacidade de integrar pessoas, processos, dados, inteligência artificial, sistemas de gestão e equipamentos automatizados em uma única operação logística inteligente.

                          Para o Brasil, esse processo representa uma oportunidade estratégica para aumentar a produtividade, melhorar o nível de serviço e tornar os Centros de Distribuição mais competitivos diante de um mercado cada vez mais rápido, conectado e orientado por dados.

                          Referências

                          Produzido em parceria com Everton Godoy.

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